arena corinthians

“Aqui tem um bando de loucos”

12 Jun , 2014  

Entenda a rede de relações entre Corinthians, CBF e Ronaldo, e como isso envolve o palco da abertura da Copa

Frequentemente, na produção diária de informação, as notícias são divulgadas de forma isolada. O cidadão não costuma relacioná-las a reportagens anteriores, e perde-se no entendimento da complexa malha de poder existente no Brasil. Uma simples retrospectiva dos acontecimentos, no entanto, revela o que um fato tem a ver com outro, e traz a luz a conexão umbilical entre atores sociais diversos.

Ao se investigar, na organização da Copa, a rede de relações entre a Globo e o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, chega-se a figuras polêmicas como a do ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez, muito próximo a ambos, e o ex-craque Ronaldo Fenômeno. Dessa relação, surgem conexões mais amplas com empresas como a Odebrecht, companhia que mais ganha com o megaevento, e até com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principal responsável pela escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo em 2007.

A Navarro Sanchez.jpg
[André Sanchez  - Foto: Antônio Cruz/A Br - Agência Brasil]

Para contar como funcionam essas relações, deve-se lembrar o que aconteceu no futebol brasileiro em 2009, dois anos após a escolha do Brasil como sede da Copa. Houve uma cisão entre o Clube dos 13, ligado aos principais times, e a CBF pelo direito de transmissão dos campeonatos brasileiros. Na eleição para o Clube dos 13, Kleber Leite era o candidato da CBF, e nem o seu clube, o Flamengo, o apoiava. Mas a CBF e Andrés Sanchez sim. Fábio Koff, oposição à CBF, acabou vencendo. Juvenal Juvêncio, então presidente do São Paulo, virou vice na chapa de Koff defendendo o direito à concorrência nos direitos de transmissão.

O Morumbi, estádio do São Paulo, já havia recebido a chancela oficial como o estádio da capital paulista para a Copa. Depois da eleição ao Clube dos 13, o COL aumentou as exigências e o clube não pôde arcar com elas. Qual foi a solução? Construir um estádio para o Corinthians, então presidido por Andrés Sanchez, aliado da CBF, que era presidida por Ricardo Teixeira, também presidente do COL.

Estádio sem custos

O Corinthians não gastou quase nada por sua Arena. Para que o time pudesse construir o estádio, a prefeitura paulista, sob a gestão de Gilberto Kassab (PSD), aceitou abrir mão de R$ 420 milhões em impostos – IPTU e ISS. Para a concessão da Arena Corinthians, foi escalada a Odebrecht. Documentos comprovam que a construtora foi pressionada a levantar o estádio 1. Segundo Luis Paulo Rosenberg, então diretor de marketing do clube, o representante da Odebrecht disse: “está bom, eu vou fazer esse estádio no talo, mas vou fazer viaduto, vou fazer não sei o que. Quando virar estádio da Copa tem mais dinheiro”. 2

Ou seja, a empresa apostava em lucrar com as obras do entorno. Em 2011, a Odebrecht admitiu, inclusive, pagar algumas das viagens de Lula para dar palestras em países como Venezuela e Panamá. Lula teria ajudado a abrir portas para a empresa até em países como Cuba, onde a empresa construiu o porto de Mariel com financiamento do banco de desenvolvimento brasileiro BNDES (US$ 683 milhões). Alexandrino Alencar, diretor da Odebrecht, viajou com Lula para a África no mesmo ano de 2011, quando ele nem era mais presidente. 3

Ascensão de Andrés Sanchez

No mesmo ano de 2009, Lula convenceu Andrés Sanchez a se filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT). Em 2014, após a Copa, Andrés será o puxador de votos da legenda do PT para deputado federal. Lula aposta que terá mais de 500 mil votos4. O lançamento da Arena Corinthians teve Andrés como principal estrela. O contrato com a Odebrecht havia sido lançado no aniversário de 101 anos do Corinthians, em 2011, com a presença de Lula, já como ex-presidente.

Foi também em 2009 que o Corinthians de Sanchez contrata Ronaldo. É neste momento que o Fenômeno se aproxima politicamente de Sanchez e de Lula. Com o tempo, Ronaldo terminaria integrando o COL, e sendo a principal figura de propaganda da Copa. Durante estes cinco anos, vem defendendo a organização da Copa. A duas semanas da Copa, entretanto, fez críticas ao evento e anunciou o apoio a Aécio Neves, adversário do PT na disputa presidencial.

Ronaldo-e-Aécio-NevesFoto com Aécio, publicada no Instagram de Ronaldo

Empresário fenomenal

As conexões de Ronaldo com CBF e Globo também chamam a atenção. O ex-jogador, agora empresário, foi convidado a ser comentarista dos jogos da seleção brasileira na Copa das Confederações, em 2013. Viraram motivo de piada nas redes sociais não só os comentários do ex-craque, mas também as constantes alusões ao talento do atacante Neymar. É que a empresa de Ronaldo, a 9ine, é responsável pela imagem do jogador. Recentemente, Ronaldo foi confirmado também como comentarista na Copa do Mundo.

O acúmulo destas funções – empresário responsável pela imagem de Neymar, comentarista da Globo, e integrante do COL – nunca foi comentado pela emissora. Mas as conexões são ainda mais extensas. A Marfinite, cliente da 9ine, abocanhou os direitos para fornecer as cadeiras da Arena Fonte Nova, também operada pela Odebrecht. Como garoto-propaganda de marcas, tomando a Copa como suporte publicitário, Ronaldo só perde para Neymar. 5

As conexões não param por aí. A empresa WPP, que na verdade é a verdadeira dona da 9ine, ganhou do governo federal a missão de divulgação turística da Copa-2014. Já Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) fechou um contrato de serviços de consultoria com a Ogilvy & Mathers Brasil Comunicação, que faz parte do grupo WPP do Brasil. 6 A 9ine também representa empresas parceiras oficiais da Copa do Mundo, como a Ambev 7.

Crise anterior no Corinthians

Em 2007, a sede do Corinthians havia sido invadida pela Justiça Federal. Kia Joorabchian, da MSI, era o gestor iraniano do clube acusado de usar o Corinthians para lavar o dinheiro roubado pela máfia russa. O presidente do time na época era Alberto Dualib, que foi condenado a três anos e quatro meses de prisão. Andrés Sanchez era aliado de Dualib, mas foi para a oposição e se elegeu presidente.

No entanto, o jornalista Paulo Cezar Prado relata que Andrés Sanchez funcionou, no Corinthians, como laranja de Kia Joorabchian. 8 Segundo o empresário Dimitris Tzalas, Sanchez levava comissão no clube por cada negociação. O nome de Sanchez já esteve ligado a 43 empresas. Essas informações nunca foram divulgadas pela Globo. Em 2010, Sanchez foi o chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo, na África do Sul. 9


2 Responses

  1. […] a retirada do Morumbi, do São Paulo, como o estádio a abrigar a Copa na maior cidade do país. A explicação da medida é uma complexa rede de relações políticas entre o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, o […]

  2. […] Projeto #VaiMudar (textos de Adriano Belisário e Leandro Uchoas) […]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *