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Copa das Cúpulas: a máfia dos cambistas

20 Jul , 2014  

Encerrada a Copa, os detentos de Bangu ganharam a companhia do inglês Raymon Whelan, que se entregou às autoridades dias após protagonizar uma fuga da polícia pela porta dos fundos do Copacabana Palace. O ato fora anunciado por sua esposa Ivy Byrom um dia antes, enquanto assistia tranquilamente no Maracanã a partida final. Acusado de chefiar a quadrilha de cambistas da Copa no Brasil, Whelan ainda é “peixe pequeno” na máfia dos ingressos. A pergunta é: as investigações oficiais chegarão aos grandes tubarões? 1

Por enquanto, estão longe. Enquanto o executivo da Match era encaminhado para Bangu na última segunda (14/07), Joseph Blatter concedia entrevista coletiva sob proteção policial. Para entender sua participação no esquema é preciso voltar ao ano de 1986.

Na época, Joseph Blatter completava 50 anos como secretário-geral da FIFA. Ocupava a presidência João Havelange, sogro de Ricardo Teixeira, e íntimo de Guilherme Cañedo, executivo mexicano de telecomunicações e vice-presidente da entidade. Cañedo apresentou a família Byrom a Blatter naquela Copa, realizada em seu país. O encontro marcou o início de uma polêmica e durável parceria. 2

Desde 2005, a mídia e mesmo consultorias internacionais como a Ernst & Young já apontavam irregularidades na venda de ingressos para a Copa do Mundo. De lá pra cá, o esquema se manteve basicamente o mesmo. Os ingressos disponibilizados para os fãs do futebol são apenas uma fatia do bolo. Outra parte é repassada pela FIFA e Jaime e Enrique Byrom a agências de viagens, que fazem a chamada “venda casada”, atrelando-o a pacotes de viagens. 3

No Brasil, a quadrilha vendia ingressos de todas as categorias, e para todos os jogos da Copa, da abertura à final. Para abertura do evento, o argentino Lamine Fonfana – parte do esquema no Brasil, segundo a polícia – vendeu 52 ingressos VIP, custando até R$ 12 mil cada um. Havia o registro de 900 ligações por telefone celular de Lamine, nos últimos dois meses, para um número oficial da FIFA. Ao todo, seu caderno registrava 112 ingressos, ao custo de R$ 912 mil aproximadamente. Pelos cálculos da polícia, nas 64 partidas da Copa, a máfia poderia render até R$ 200 milhões. 4

Há três tipos de contrato administrados pela Match. O primeiro se refere à distribuição dos ingressos. O segundo está vinculado à acomodação dos estrangeiros no país que está recebendo a competição. E o terceiro aborda a entrada nos camarotes luxuosos dos estádios, onde o torcedor tem acesso a benefícios antes inéditos nos estádios brasileiros, como bufês e bebidas chiques.

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Joseph Blatter: longo histórico com os irmãos Byrom

Segundo o jornalista Andrew Jennings, há provas de que os Byron ofereceram, nas duas últimas Copas, ingressos para o vice-presidente da FIFA Jack Warner, que os ofereceu no mercado negro em troca de votos no Comitê Executivo da entidade. Haveria também um esquema de permissão de que as ligas nacionais comprem ingressos e entreguem no mercado negro. Com isso, a FIFA “compra” a lealdade das associações de cada país nas decisões e eleições. Integrantes de países que nunca teriam tido recursos para viajar ao Brasil para ver a Copa conseguem seus ingressos no mercado negro. 5

Jennings conta que na Copa de 2006, os alemães não deram aos Byrom os ingressos, mas apenas uma parte da responsabilidade sobre a hospedagem. Mas na Copa de 2010, o esquema funcionou na sua integralidade. E no Brasil foi adotado com a mediação de Ricardo Teixeira. A FIFA e os irmãos mexicanos tentaram bloquear a publicação do livro de Jennings na Inglaterra. Ele alega ter, inclusive, sofrido ameaças.

Apesar dos imprevistos no Brasil, a parceria da Match com a FIFA está longe de acabar. Mesmo após as prisões, Blatter segue protegendo seus negócios e oficialmente a entidade continua afirmando a inocência da Match. A empresa da família Byrom detém os direitos de comercialização de eventos da FIFA até o mundial feminino de 2023, que nem sede possui, e tem o sobrinho de Blatter como um de seus acionistas.

O Brasil foi o único país a permitir renúncia fiscal à FIFA e empresas parceiras, porém, a venda de ingressos e pacotes de hospedagem foi taxada pelo governo. A Receita Federal afirma não ter dados precisos sobre a arrecadação. Segundo o órgão, “a Contribuição para o PIS/PASEP e a COFINS, devidas no regime de apuração cumulativa, serão calculadas mediante aplicação das alíquotas de 0,65% (sessenta e cinco centésimos por cento) e 3% (três por cento), respectivamente”.

  1. Extra
  2. Globo
  3. Um jogo cada vez mais sujo – Andrew Jennings p. 70
  4. Fantástico
  5. Um jogo cada vez mais sujo – Andrew Jennings


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