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Envolvidos até o pescoço

8 Jun , 2014  

Recentemente, Aécio Neves (PSDB)1 e Eduardo Campos (PSB) 2, os dois principais adversários de Dilma Roussef (PT) à presidência, fizeram críticas à “organização” da Copa. Quem ouve as declarações talvez tenha a impressão de que o governo federal organizou sozinho o evento. E que Aécio, como governador de Minas Gerais (2003-2010), e Campos (PSB), como governador de Pernambuco (2007-2014), nada fizeram com relação à Copa em seus estados.

Não é por acaso que as declarações têm sintonia com o sentimento popular. De olho nas eleições e em pesquisas que mostram a insatisfação com a Copa 3, a oposição tenta tirar proveito da situação. No entanto, culpar isoladamente o governo federal pelos malfeitos é apenas uma forma de se livrar da responsabilidade.

A união entre os maiores partidos da oposição e o governo para a realização da Copa já se mostrava presente em 2007. Naquele ano, por intermédio de Ricardo Teixeira, chegava às mãos do então presidente Lula o “Bidding Agreement for the 2014 FIFA Word Cup”, que embasou a elaboração da Lei Geral da Copa. Obtido via Lei de Acesso à Informação, o documento detalha as onze garantias exigidas pela FIFA para que o Brasil pudesse sediar a Copa.

Ricardo Teixeira apresenta o Caderno de Encargos da FIFA ao Governo Brasileiro

Na carta de apresentação ao chamado “Caderno de Encargos”, o presidente da CBF destacou o “entusiasmo e otimismo” que percebeu entre “governantes dos mais variados espectros partidários” quando o assunto era Copa do Mundo. Teixeira prometia a atração de “maciços investimentos, na casa dos bilhões de dólares americanos”, mas para isso era preciso “uma atenção particular da administração pública” tendo em vista a “instalação do complexo aparato necessário para viabilizar uma Copa”.

As empreiteiras dão as cartas

Em outubro daquele ano, antes mesmo do anúncio oficial do Brasil como sede, os empreiteiros já se movimentavam nos corredores do poder de olho na Copa. Em agosto de 2007, a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) organizou um seminário de dois dias em Brasília com a presença do então Presidente da República e da Câmara de Deputados, Lula e Arlindo Chinaglia, além de 12 ministros e representantes do Senado e do Poder Judiciário.

“Esse debate resultou em um documento que mostra bastante o que temos de fazer para construirmos a infraestrutura necessária para o País. Por que quisemos reunir todo o governo federal naquele seminário? Simples: porque temos de ter todos com uma visão bastante sincronizada do que é preciso fazer e de como fazer”, relatou Ralph Terra, vice-presidente executivo da Abdib 4.

Em 2008, a CBF, a ABDIB e o Governo Federal assinaram um termo de cooperação 5, que responsabilizou a ABDIB pela elaboração dos projetos que subsidiaram “União, Estados, Distrito Federal e Municípios no que concerne à infraestrutura necessária para a realização da Copa”. O projeto foi totalmente custeado por 27 empresas filiadas à associação, que se reuniram em um “GT Copa” para acompanhar os estudos.

“Posto que a ABDIB é uma entidade privada sem fins lucrativos, para a realização do estudo, de acordo com informação repassada a este Relator, cada megaempresa que integra o Grupo Técnico teria contribuído com R$ 300 mil – totalizando, portanto, R$ 8,1 milhões – para a consecução dos objetivos do Termo de Cooperação”, descreveu o deputado Paulo Rattes em relatório da Câmara dos Deputados6. Apesar do suposto custo milionário, os estudos foram realizados por apenas cerca de 50 profissionais, que analisaram as condições das 18 cidades candidatas aos jogos. 7


(Atuais participantes do GT Copa 2014. Fonte: ABDIB)

Influenciando o governo da presidenta Dilma ainda na gestação das obras para a Copa, não surpreende que algumas das empreiteiras da ABDIB tenham se favorecido com as licitações bilionárias para o megaevento. O protagonismo das empresas em decisões fundamentais da preparação do país para a Copa é abordado na tese de doutorado da arquiteta Any Ivo, que pesquisou a reestruturação das cidades para a Copa de 2014 e prepara um livro sobre o assunto.

Supergastos em Minas Gerais

Em Minas, os gastos do governo estadual com a reconstrução do Mineirão cresceram 63%. O orçamento inicial, que já previa vultosos R$ 426 milhões, terminou em R$ 695 milhões 8. Deste montante, R$ 400 milhões vieram por financiamento do BNDES, com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Formada pela Construcap, Egesa e Hap Engenharia, a concessionária responsável irá administrar por 25 anos.

Coincidência ou não, duas delas são grandes financiadoras de campanhas políticas do PSDB. Entre 2002 e 2012, apenas em Minas Gerais, a Egesa investiu mais de R$ 1,8 milhões em candidaturas daquele partido. A soma ultrapassa o valor destinado aos outros dois partidos mais beneficiados: PMDB (R$ 1,1 milhões) e PR (R$ 510 mil). Os tucanos possuem preferência também na Construcap, que investiu mais de R$ 3,4 milhões nas campanhas do PSDB no mesmo período.

Porém, se Aécio conta com o amparo das construtoras, a situação é outra entre os operários que trabalharam na construção do Mineirão. Juntos, eles mobilizaram 10 das 92 greves ou paralisações que aconteceram durante as reformas nos 12 estádios da Copa. Uma delas ocorreu durante uma visita de Dilma, por ocasião da “Festa dos mil dias” para a Copa. Resultado: 1100 trabalhadores cruzaram os braços, alegando descumprimento de acordos por parte das construtoras, e a visita se deu com o canteiro de obras vazio. 9

Aecio Mineirao(Aécio Neves em visita às obras do Mineirão. Foto: Governo de Minas Gerais)

Em Belo Horizonte, a ampliação do Anel Rodoviário, obra financiada pelo PAC, levou à remoção de cerca de 2.600 famílias. Segundo o Comitê Popular da Copa, para abrigar a Vila da Copa, 24 casas foram demolidas sem ordem judicial, na última reserva verde da cidade, a Mata de Isidoro. O Ministério Público Estadual (MPE) apontou nada menos que 14 irregularidades no processo.

O PSB também está envolvido com a realização da Copa na cidade. Administrando Belo Horizonte desde 2009, o prefeito Márcio Lacerda (PSB) foi eleito com o apoio de Aécio e do PT local, mesmo tendo o nome envolvido no mensalão. Tiago Lacerda, seu filho, foi gestor do Comitê Executivo Municipal da Copa por dois anos, “como voluntário”. O engajamento lhe rendeu uma promoção. Em 2012, tornou-se responsável pela Secretaria Extraordinária para a Copa do Mundo. 10

Remoções em campo

Em Recife, cidade que recebe cinco jogos da Copa, os três principais clubes – Sport, Náutico e Santa Cruz – já tinham estádio próprio. Mas o governo estadual decidiu construir um quarto a 20km de distância do centro da cidade. A Arena Pernambuco fica no que o governo chamou de Cidade da Copa, um complexo construído no município de São Lourenço da Mata especialmente para abrigar o evento .

Por meio do polêmico projeto de Lei nº 1973/2014, o governo tenta doar um terreno de cerca de 200 hectares para a Odebrecht, que ganhou também a licitação para construção e operação do estádio. Não sabe ao certo o valor final, mas estima-se  os gastos chegam a algo em torno de R$ 650 milhões, sendo 74% dos recursos iniciais oriundos do BNDES. Mas novamente as altas cifras não foram revertidas em melhorias nas condições de trabalho dos operários: quase um quinto do total das greves e paralisações em estádios da Copa ocorreu em Pernambuco. 11

Eduardo Campos e Ricardo Teixeira(Ao centro, Eduardo Campos e Ricardo Teixeira posam para foto, no sorteio de grupos da Copa do Mundo)

Já a prometida melhoria no transporte público também está atrasada. Das 45 estações de BRT prometidas para a Copa, só três vão funcionar até lá (7%) 12 e haverá somente uma linha em funcionamento, apesar dos R$ 300 milhões investidos. Para completar, o metrô tem apresentado uma média de 10 a 15 panes por mês, mesmo com uma demanda bastante inferior à dos dias do campeonato.

Corredor rodoviário de acesso ao Estádio, o Ramal da Copa também não ficará pronto a tempo. Para construí-lo, no entanto, mais de 200 casas do Loteamento São Francisco foram destruídas. A líder comunitária Adjailma Pereira, disse no último encontro dos atingidos pela Copa que “75% das pessoas da comunidade não receberam suas indenizações e ainda estão precisando morar em casas de parentes ou de aluguel, quando muitos são idosos e moravam ali há mais de 50 anos” 13 Por conta dos transtornos e da forma arbitrária como as remoções foram feitas, sete pessoas faleceram em decorrência de doenças relacionadas a estresse e depressão.


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