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Apenas uma obra do “legado da Copa” para o transporte está pronta

8 Jun , 2014  

Às vésperas do apito inicial, apenas uma obra de mobilidade urbana da Copa foi completamente concluída, de acordo com o Portal da Transparência

Quem está acostumado a utilizar transporte público no Brasil está acostumado a esperar. A precariedade dos serviços obriga a população a manter uma rotina demorada, cansativa e, por vezes, dolorosa. Basta lembrar do episódio do Rio de Janeiro, onde funcionários da empresa responsável pela administração dos trens da cidade (Supervia, controlada pela Odebrecht) chicotearam os usuários que se espremiam nos vagões dos trens.

Desde que o Brasil ganhou o “direito” de sediar a Copa do Mundo 2014 – quase 7 anos atrás – criou-se muita expectativa de transformações estruturais profundas, que pudessem alavancar o padrão de vida no país. Em janeiro de 2010, os governos municipais, estaduais e federal firmaram a Matriz de Responsabilidades, a qual previa muito mais do que gramados e arquibancadas, acrescentando fortes investimentos em aeroportos, portos, segurança, mobilidade urbana e outros setores.

Assim, criou-se a idéia do “legado” da Copa: intervenções urbanas feitas por conta dos jogos, mas que trariam melhoras permanente à vida da população. Porém, conforme os dados de junho do Portal da Transparência da Copa, tal como os ônibus e trens das cidades, o legado da Copa para o transporte público também atrasou.

Atrasou e diminuiu. Antes tida como uma das prioridades nos preparativos, a área de transportes apresenta hoje uma realidade bem abaixo das expectativas criadas em 2010. De 53 obras anunciadas entre 2010 e 2011, 20 foram descartadas e somente uma figura com 100% de “execução física”: o Boulevard Arrudas / Tereza Cristina, em Belo Horizonte.

Cadê o transporte? Sumiu!

As obras de mobilidade urbana foram sendo excluídas da Matriz de Responsabilidades original, à medida em que se percebia que não sairiam a tempo de junho de 2014. Muitas sequer saíram do papel. Sumiram das versões posteriores da Matriz de Responsabilidades como se nunca tivessem existido. Tal medida também servia para conter os gastos totais da Copa. Afinal o valor global do evento estava inflando com os vultosos acréscimos para Estádios (até 242% em SP ou 658 milhões brutos no DF) e a chegada de gastos só estipulados após 2012 (Telecomunicações, Segurança, Turismo e Copa das Confederações).

Na primeira Matriz de Responsabilidades, de janeiro de 2010, a Mobilidade Urbana era claramente a ênfase dos investimentos: 11.598 milhões de reais para 51 obras distribuídas nas 12 cidades. Mais do que o dobro do destinado a Estádios, na mesma época: 5.389 milhões.

De lá para cá, muita coisa mudou. Na última atualização da Matriz, de setembro de 2013, o custo dos Estádios ultrapassa R$ 8 bilhões (48,5% maior que em 2010), superando o valor destinado à Mobilidade Urbana, que caiu para aproximadamente R$ 7 bilhões (39,4% menor). Isto sem contabilizar algumas obras no entorno de estádios, que são considerada pelo governo como projetos de mobilidade urbana.

A dramática redução se explica com a exclusão de diversas ações previstas na Matriz original: eram 51 obras previstas, chegando a 53, em 2011. Desde então, 20 ações de Mobilidade Urbana foram excluídas do “legado da Copa”. Das 33 obras que permaneceram, 13 estão até 50% prontas e 20 acima da metade, segundo os dados oficiais de “execução física”.

Há exemplos como o do Monotrilho Morumbi-Congonhas, em São Paulo, que permanece em construção, mas foi excluído da Matriz (a opção pela construção da Arena Corinthians, em Itaquera desvinculou a região dos preparativos da Copa). O VLT de Brasília chegou a ser paralisado por suspeitas de fraude na licitação, em 2011. Com a dificuldade de entrega – atualmente prevista para 2016 -, o projeto também foi retirado da Matriz. Em Porto Alegre, devido a atrasos generalizados, todas as 11 ações previstas foram descartadas. Das 12 cidades-sede, um terço – Porto Alegre, Manaus, Salvador e São Paulo – ficou sem nenhuma melhoria nos transportes públicos, por projetos vinculados à realização da Copa.

Os valores previstos no orçamento da Matriz são oriundos de financiamentos federais (Caixa ou BNDES), investimentos federais diretos, investimentos locais diretos e da iniciativa privada. Então, são gradualmente liberados para as autoridades locais, responsáveis diretos pelas obras – governos municipais, estaduais ou a “Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo” – ,que fazem licitações e repassam a verba à empresa executante. Segundo dados da ANCOP, a iniciativa privada responde por 0,4% dos gastos totais da Copa. 1

Na situação atual, praticamente todas as obras de mobilidade urbana vinculadas à Copa precisarão ser terminadas após a Copa do Mundo. E é provável que sejam investidos ainda mais recursos públicos para a finalização dos projetos, através de aditivos e aportes dos governos estaduais e municipais. Projetos em diversas cidades, como Belo horizonte, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro, já extrapolaram o último orçamento oficializado na Matriz de 2013. 91,22% dos valores aprovados já estão licitados, porém 18 das 33 ainda se encontram abaixo do índice de 50% de “execução física”.

A COPA DO MUNDO (QUE NÃO ACONTECEU…) NA MODERNIZAÇÃO DO TRANSPORTE BRASILEIRO. | Create Infographics

LEGADO SÓ PARA ESTÁDIOS

 

maxresdefaultLúcio Gregori em aula pública convocada pelo Movimento do Passe Livre (Reprodução: Vídeo Boitempo)

Lúcio Gregori foi Secretário Municipal de Transportes de São Paulo, de 1990 a 1992. Na sua gestão, formulou uma proposta pioneira de passe livre municipal. Ele aponta um raciocínio que vai além das questões de prioridade política ou de má gestão:

Quais as razões dessa “falha” de planejamento e execução que teriam levado à drástica redução de investimentos feitos ou planejados para a Copa?
Lúcio: Houve essa redução de investimentos porque, em primeiro lugar, foi insano vincular reformas estruturais em Mobilidade Urbana com uma Copa, que é um evento temporário. O Brasil não está mal em transportes ou aeroportos para organizar a Copa. São deficiências sérias que temos, por razões como aumento de demanda interna, mudança de perfil das viagens… razões sem nenhuma relação com a Copa. Tanto que as obras não ficam prontas e vai ter Copa mesmo assim.

Mas, então, o que levou a colocar tantos investimentos na planilha da Matriz de Responsabilidades?
Lúcio: Foi uma forma publicitária, para vender uma boa imagem, dizendo que haveria um ‘legado’ da Copa. Uma propaganda que não resistiu à realidade: a Copa é um campeonato de futebol e o legado é só para estádios.

E agora a pressão se volta contra?
Lúcio: Quando se tem questões como remoções, que é algo inescapável quando se fala em reformas de mobilidade urbana… ainda por cima, anunciar que as remoções são preparativos da Copa… isso gera um mal estar tremendo. Eu não sou contra a Copa, mas sou contra essa propaganda do ‘legado’.


One Response

  1. Jose Elton says:

    Moro em Curitiba e concordo que muito pouco vai ficar de legado mas muito dinheiro publico arrecadado com o suor do trabalho do povo atraves de impostos e taxas foi utilizado. Fico perplexo com esses dados divulgaodos sobre isto. A sensação e de estar sendo literalmente roubado. Temos que cobrar explicacoes dos responsaveis.

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