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Parcerias lucrativas: a gente vê por aqui

1 Jul , 2014  

“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. Em meio ao turbilhão de vozes nas ruas brasileiras em junho de 2013, durante a Copa das Confederações, não raro ouviam-se coros de manifestantes contra a emissora. Além de dita em alto e bom som, a hostilidade com a emissora também era visível. Jornalistas foram expulsos de manifestações e carros, revirados.

Mas qual a relação da Rede Globo com a organização dos megaeventos esportivos? Haveria, de fato, conexões diretas entre a corporação e o jogo de poder por trás da Copa do Mundo? Ou tudo não passava de teoria da conspiração? Para entender a intricada relação da emissora com a organização da Copa do Mundo, para além das conexões mais óbvias e diretas, é preciso se entender a rede de relações de poder por trás do xadrez político dos megaeventos.

Isenção de impostos

De acordo com o Caderno de Encargos para a Copa de 2014, que detalha as exigências da FIFA para a realização do torneio, o governo é obrigado a dar isenção completa de quaisquer impostos sobre importação e exportação ou exploração de direitos comerciais e de mídia, bem como conversões livres de taxa para o dólar, euro e franco suíço. Para além da FIFA, a garantia é assegurada também para parceiros de vendas da entidade. No site da entidade 1, o contato para assuntos relativos ao merchandising da Copa no Brasil é o da empresa Globo Marcas. A Globo é também a parceira oficial de mídia e retransmissora oficial da FIFA.

Caderno de Encargos, obtido via Lei de Acesso à Informação

Na lista da Receita Federal 2 de beneficiados com isenção fiscal para a Copa, consta a ‘FIFA WORLD CUP BRAZIL ASSESSORIA LTDA’, que possui capital social de R$ 25 milhões. Segundo o documento, a empresa é a responsável pela realização do “SORTEIO FINAL DA COPA DO MUNDO BRASIL 2014″ e da “FIFA FAN FEST”. Em uma ação civil pública do Ministério Público Federal contra a empresa 3, é detalhada a relação desta empresa com a Globo, na negociação dos direitos de transmissão da Copa. O documento relata que “mesmo pagando o valor do licenciamento, houve restrições – negativa pura e simples de outorga -, a exemplo das emissoras vinculadas à Record, organização adversária da Globo”. Questionada sobre a possível isenção de impostos, a Globo Marcas não se pronunciou.

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No caso da FIFA FAN FEST, em abril de 2011, durante reunião com representantes de prefeituras e governos estaduais, a FIFA indicou uma empresa das Organizações Globo para realizar estes eventos oficiais de exibição pública dos jogos nas cidades-sede. Algumas autoridades relataram que a indicação se deu em tom de imposição, enquanto outros afirmavam ser necessária uma licitação pública tal, segundo matéria da Folha. 4 Em Recife, por exemplo, o governo local rompeu com a FIFA e se recusou a investir recursos públicos no evento. 5

Já no sorteio final da Copa, a ligação com a Globo é evidente. Em julho daquele ano, por meio do contrato 002/2011, o Governo do Estado e Prefeitura (ambos controlado pelo PMDB) dividiram a conta de R$ 30 milhões para pagar os custos do evento de sorteio das chaves da competição. Braço da Organizações Globo indicado pela FIFA, a Geo Eventos S/A levou a bolada, sem licitação.

O mesmo evento, na Copa da África do Sul, custou apenas o equivalente a R$ 2 milhões. No Brasil, a empresa foi contratada em regime de exclusividade pelo Comitê Organizador Local (COL), na época presidido por Ricardo Teixeira, também presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de relações muito próximas à Globo.

havalanginha(Joana Teixeira, diretora-executiva do COL e filha de Ricardo Teixeira, compartilhou texto no Instagram afirmando que “o que tinha que ser gasto, roubado, já foi”)

 

Família Marinho e Teixeira

Parceira oficial de mídia da FIFA, a Globo é sem dúvida a emissora predileta dos barões do futebol brasileiro. São conhecidas as boas relações históricas entre a família Marinho e Ricardo Teixeira. Ao longo dos anos, diversas acusações de envolvimento em corrupção veiculadas por outras emissoras foram, muitas vezes, omitidas pela Globo. Em 2001, enquanto o Congresso Nacional abrigava a CPI da CBF, que investigou negócios suspeitos protagonizados por Teixeira, a Globo pela primeira vez decidiu veicular denúncias contra o cartola. Fez um Globo Repórter inteiro sobre o caso.

Foi só. Pouco depois, a emissora deixou de veicular acusações contra Teixeira. E a CPI da CBF, embora o relatório contivesse escandalosas revelações, terminou em pizza. Em entrevista à revista Piauí 6 em julho de 2011, o próprio Ricardo Teixeira revela, com todas as letras, como calou a Globo. Marcou um jogo da seleção para 19h45m. “Pegava duas novelas e o Jornal Nacional. Você sabe o que é isso?”, afirmou com malícia para a repórter Daniela Pinheiro. Historicamente, a entidade faz jogos da seleção e do Campeonato Brasileiro depois das novelas da emissora “parceira”.

A entrevista à Piauí é um manual de comportamentos nebulosos admitidos publicamente. Alguém poderia até mesmo estranhar a ausência de qualquer consequência judicial.  Mas o próprio Teixeira dá as pistas, quando diz que só se preocuparia com as críticas que vinha recebendo “no dia em que o Jornal Nacional” noticiasse algo negativo.

A Globo é a emissora oficial da Copa do Mundo, como foi da Copa das Confederações em 2013. Em documento oficial 7, a FIFA garante à empresa o direito de “emitir Licenças para Eventos de Exibição Pública para toda e qualquer partida” do Mundial.

Sonegação de imposto

Acusa-se a emissora, também, de sonegar Imposto de Renda para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002, vencida pelo Brasil 8. Depois das investigações, em 2006, a Receita Federal queria multar a Globo em R$ 615 milhões, mas o processo desapareceu da sede da Receita no Rio. Em 2013, a funcionária do órgão Cristina Maris foi condenada a quatro anos de prisão por sumir com o documento. 9

A Globo teria usado um Paraíso Fiscal nas Ilhas Virgens britânicas para pagar pelos direitos de transmissão daquela Copa. A emissora teria recorrido a uma rede de doleiros comandada por Dario Messer, homem que lavava o dinheiro de Rodrigo Silveirinha e líder da máfia dos fiscais do Rio de Janeiro.

A Globo já detém, também, o direito de transmissão das Copas do Mundo de 2018, na Rússia, e de 2022, no Qatar. A principal concorrente, a Rede Record, protestou contra o suspeito mecanismo de escolha 10. Não houve concorrência pelos direitos de transmissão. “O acordo com a (Globo) foi anunciado sem que qualquer outra empresa de comunicação brasileira tenha sido consultada. A informação foi divulgada no mesmo espaço de notícias em que a FIFA anuncia a abertura de licitação dos direitos para centenas de países da Europa. (…) É estranho verificar que para o Brasil o método seja outro”, disse a Record em nota. A Globo transmite todas as Copas desde 1970, a primeira a ser televisionada ao vivo.

A Globo Marcas também ganhou, em 2012, o direito de fazer o licenciamento de produtos com a marca do Mundial de 2014 11. Com o acordo, A FIFA permite que a empresa forneça e distribua com exclusividade todos os produtos oficiais da Copa em território nacional. A empresa também vai administrar as lojas oficiais do torneio e fará a venda dos produtos oficiais via internet.

A Globo Marcas estima que a venda dos 1700 produtos ligados ao evento movimentarão quase R$ 2 bilhões no varejo. Já as cotas de patrocínio da Copa na Globo foram vendidas por mais de R$ 2,5 bilhões para a Ambev, Coca-Cola, Banco Itaú, Johnson & Johnson, Hyundai, Magazine Luiza, Nestlé e Oi.

Monopólio de transmissões

As relações umbilicais com Ricardo Teixeira fez com que o Brasil pouco conhecesse os motivos que levaram o ex-presidente da CBF a abandonar a entidade e o COL. Teixeira e seu sogro, João Havelange, ex-presidente da FIFA, foram acusados de receber, em 2011, R$ 45 milhões em propinas por ceder o direito de rádios e tvs transmitirem Copa do Mundo.

Como os dois fizeram um acordo com a Justiça suíça de devolver o dinheiro, informações mais específicas não vieram a público. Mas o jornalista suíço Jean François Tanda, que historicamente cobre estes casos, afirma que a Globo enviava o dinheiro para a ISL, empresa que era responsável pelos contratos de exclusividade. A ISL daria parte para a FIFA e parte para Teixeira. Os depósitos teriam sido feitos na empresa Sanud, com sede em paraíso fiscal. As datas de recebimento do dinheiro coincidem com fortes investimentos de Teixeira em sua fazenda em Barra do Piraí (RJ).


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