Sepp_Blatter_&_João_Havelange

Os donos da bola

4 Aug , 2014  

Antes da Copa, o técnico Carlos Alberto Parreira estava convicto. Afirmava que não conseguia imaginar o Brasil sair da competição sem levar o título, pois tudo estava dando certo na preparação para a equipe. Na mesma entrevista, sentenciou: “seleção brasileira e CBF são duas entidades indissolúveis, uma não existe sem a outra [...] A CBF é o Brasil que deu certo”. 1

Hoje, não há dúvidas que algo deu errado. Após a humilhante derrota, o ex-atacante e deputado federal Romário (PSB-RJ) expressou sua revolta nas redes sociais:

“O presidente da entidade, José Maria Marin, é ladrão de medalha, de energia, de terreno público e apoiador da ditadura. Marco Polo Del Nero, seu atual vice, recentemente foi detido, investigado e indiciado pela Polícia Federal por possíveis crimes contra o sistema financeiro, corrupção e formação de quadrilha. São esses que comandam o nosso futebol. Querem vergonha maior que essa?

Marin e Del Nero tinham que estar era na cadeia! Bando de vagabundos!!!

A corrupção da CBF tem raízes em todos os clubes brasileiros, vale lembrar que são as federações e clubes que elegem há anos o mesmo grupo de cartolas, com os mesmos métodos de gestão arcaicos e corruptos implementados por João Havelange e Ricardo Teixeira e mantidos por Marin e Del Nero” 2

Romário também criticou a derrota da proposta que tornava o futebol um patrimônio cultural brasileiro, tributando a CBF para formar um fundo de iniciação esportiva para crianças e jovens. Na ocasião, Romário listou “sete deputados alemães” que derrotaram o futebol brasileiro. Entre colchetes, incluimos a relação de alguns deles com o mundo da bola.

“Mas este texto infelizmente não foi para a frente. Sete deputados alemães fizeram os gols que desclassificaram nosso futebol e nos tirou a chance de moralizar nosso esporte. Estes deputados, como todos sabem, fazem parte da Bancada da CBF, mudei o nome porque Bancada da Bola é muito pejorativo para algo que amamos tanto. Gosto de dar os nomes: Rodrigo Maia (DEM -RJ), Guilherme Campos (PSD-SP) [vice presidente da Federação Paulista de Futebol], Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) [ex-presidente e atual conselheiro da Portuguesa], José Rocha (PR-BA) [conselheiro e ex-presidente do Vitória], Vicente Cândido (PT-SP) [vice-presidente da Federação Paulista de Futebol e sócio em escritório de advocacia de Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF], Jovair Arantes (PTB-GO) [vice-presidente do Atlético Goianense] e Valdivino de Oliveira (PSDB-GO) [presidente do Atlético Goianense]“.

 

Sepp_Blatter_&_João_HavelangeSogro de Ricardo Teixeira, João Havelange posa com o futuro presidente da FIFA, Joseph Blatter, em 1982. A dupla segurou a bola e os negócios da Adidas na FIFA. (Crédito: Nationaal Archief Fotocollectie Anefo)

O baixinho chegou a pedir o afastamento dos deputados desta votação, pois tinham interesses direto no caso. A solicitação foi negada. E escalação da CBF no Câmara vai além: há ainda o deputador Sarney Filho (PV/MA), vice-presidente da CBF para o Nordeste.

Em entrevista recente, o presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, expressou opinião semelhante a de Romário e convocou outros clubes a se unirem para exercer seu próprio lobby político, independente da CBF. “O que é a bancada da bola no Congresso e no Senado? É a bancada dos clubes? Não. É a bancada da CBF, com todo mundo atrelado à herança do Ricardo Teixeira (ex-presidente da Confederação)”, afirmou. 3

Quanto aos jogadores, muitos já pedem há tempos bom senso na gestão do futebol brasileiro. Os números dos times brasileiros mostram a desastrosa situação atual do esporte comandado pela CBF: dos 684 clubes profissionais do país, 583 não possuem calendário anual de jogos. 4 No entanto, apesar da opinião pública e parte da imprensa esportiva voltar-se contra o império montado por Ricardo Teixeira na CBF, há quem diga que o papel do cartola é superestimado.

A partida que importa: Nike VS Adidas

Devido à íntima ligação entre a CBF e a Globo, durante anos, as negociatas dos cartolas na gestão do futebol brasileiro permaneceu nas sombras. Por conta da concorrência com a rival, a TV Record realizou uma série de reportagem sobre um gigantesco propinoduto envolvendo a entidade, que deu origem ao livro ‘O lado sujo do futebol’. Nele, os jornalistas Amaury Ribeiro Jr, Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastinet mostram como Ricardo Teixeira e João Havelange “tiveram um papel menor que o atribuído a eles no mundo do esporte. [...] Grosseiramente, não passam de office boys de megacorporações”. 5

Voltemos duas décadas atrás. Em 1994, a seleção brasileira levava para casa o troféu da Copa nos Estados Unidos. Na época, o futebol já estava nos planos de negócios da Nike e poucos mercados pareciam tão promissores quanto o brasileiro. Àquela altura, Ronaldo ainda não era nenhum fenômeno e permaneceu no banco durante toda competição, mas já tinha contrato assinado com a Nike.

Retrocedendo outro par de décadas, segundo os autores, João Havelange chegou ao topo da FIFA em 1974 com o apoio Adidas. Junto com esta empresa e a ISL, ambas comandadas por Horst Dassler, ele tornaria em seguida o futebol um grande balcão de negócios. Genro de Havelange, Ricardo Teixeira aprendeu cedo a valorizar mais as táticas de mercado do que as futebolísticas no comando da CBF.

Em 1995, o casamento de Teixeira com a filha de Havelange começa a desmoronar, após a morte de uma suposta amante em um acidente de carro nos Estados Unidos. Em 1996, a CBF assinou contrato com a Nike. De fato, a Copa de 1998 parecia uma oportunidade fenomenal para a empresa. Porém, assim como em 2014, a festa terminou com uma amarga – e histórica – derrota. Na época, logo surgiram denúncias acusando a Nike de influenciar a decisão de escalar Ronaldo, seu garoto-propaganda, que tivera certos distúrbios na noite anterior à grande final. Mas quem perdeu o sono após o apito final foi Ricardo Teixeira.

Após os termos do contrato da CBF com a Nike virem a público, em 1999, o então deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) solicitou a instalação de uma CPI para investigar o assunto, mas a proposta demorou para sair do papel, graças à ofensiva montada por Ricardo Teixeira e a ‘bancada da bola’ – em especial, Marcos Vicente (PSDB-ES) e Darcisio Perondi (PMDB-RS), ligados às federações de futebol de seus estados, e do deputado Eurico Miranda (PPB-RJ), ex-presidente do Vasco. Preocupada com sua imagem, a Nike escalou o executivo Sandro Rosell 6 para cuidar dos negócios no Brasil ainda naquele ano. Em breve, Rosell asumiria o comando do Barcelona e, graças à aproximação promovida por Teixeira, levaria Neymar para a Espanha.

Mas o novo milênio começou mal para Rosell e Teixeira. No final do ano de 2000, a dupla começava uma disputa contra duas CPIs ao mesmo tempo para investigar seus negócios: uma na Câmara e outra no Senado. Apesar de ter trazido à tona diversos negócios escusos do cartola, incluindo desvio de dinheiro para paraísos fiscais, as CPIs não resultaram em maiores problemas para ambos, pois graças à influência da bancada da bola o relatório-final das investigações 7 não foi votado.

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Sandro Rosell é ex-presidente do Barcelona e da Nike (Crédito: Eigen werk)

Assim, Rosell e Teixeira comemoram em 2002 uma dupla vitória. Daquela vez, a escalação tinha funcionado no campo e nas assembleias legislativas. O Brasil saiu campeão e os dois, impunes. Na festa de comemoração, Teixeira entregou ao amigo a taça e disse que aquele título também era dele. 8 No ano seguinte, Rosell tornaria-se padrinho do segundo casamento de Teixeira.

Em 2001, a ISL faliu. Dossler já estava morto há anos e Havelange não comandava mais a FIFA. Com a parceria desfeita, o atual presidente da FIFA Joseph Blatter foi à justiça suíça cobrar uma dívida com a empresa falida de US$ 49,5 milhões relativas aos direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006, pagos pela TV Globo. Era o pontapé inicial da disputa que enfim tiraria Teixeira do comando da CBF.

Ao contrário da justiça brasileira, o promotor suíço foi a fundo nas investigações e descobriu um milionário esquema de propinas e enriquecimento ilícito de Ricardo Teixeira, envolvendo a FIFA, uma empresa da Globo em paraíso fiscais e a ISL. Teixeira pagou a multa pela condenação e não resistiu à pressão pela sua saída da CBF.

Mesmo assim, garantiu a sua filha papel-chave no Comitê Organizador da Copa no Brasil em 2014. De fato, mesmo com a retomada das críticas à CBF após outra eliminação histórica, o domínio de Ricardo Teixeira no futebol brasileiro parece estar longe de acabar.

“Estão em vigor contratos milionários assinados e tutelados por Teixeira. O da Ambev vai até 2018. O da Nike só termina em 2027. A Globo já tem os direitos das Copas de 2018 e 2022. E o mais importante: o contrato dos promotores de amistosos da seleção, do qual participa o sócio Sandro Rosell, só expira em 2022″ 9

Além do vestuário esportivo, o ex-presidente cedeu direitos de marca para a Nike até de roupas íntimas, sutiãs para esporte e cintos com a marca “Canarinho”, atrapalhando os novos planos de marketing mais diversificados do atual presidente José Maria Marin. 10


Governador biônico de São Paulo durante a ditadura, como vice de Maluf, Marin deixou o cargo sob vaias. O atual presidente da CBF também é acusado de envolvimento no assassinato do jornalista Vladimir Herzog

Se a CBF e a seleção brasileira são uma coisa só, como diz Parreira, não é nenhum exagero afirmar que Ricardo Teixeira vendeu até as roupas de baixo do escrete nacional para as grandes corporações.

  1. ESPN
  2. Extra
  3. Terra
  4. Bom Senso FC
  5. O LADO SUJO DO FUTEBOL, p. 82
  6. O nome verdadeiro do espanhol é Alexandre Rosell Feliu
  7. Relatório Final da CPI
  8. O LADO SUJO DO FUTEBOL, p. 127
  9. O LADO SUJO DO FUTEBOL – p. 374
  10. UOL


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