Blatter

Recorde de gols e gastos

20 Jul , 2014  

171 jogadas em campo balançaram as redes da Copa do Mundo no Brasil. Para o espetáculo acontencer, outras jogadas fora dos campos fizeram desta edição a mais cara da história. A Copa no Brasil custou mais do que o dobro do que se gastou nas três últimas edições do evento, no mínimo.

Segundo a fundação alemã Heinrich Böll Stiftung (HBS), a Copa do Japão e da Coréia do Sul (2002) custou 4,6 bilhões de dólares, a da Alemanha (2006), 3,7 bilhões de euros e a da África do Sul (2010), US$ 3,5 bilhões. O custo final da Copa do Mundo no Brasil ainda não é conhecido, e valores distintos são divulgados. Mas a última versão da Matriz de Responsabilidades, de setembro de 2013, o orçamento total é de R$ 25 bilhões.

A relação entre o custo dos estádios e sua quantidade de assentos foi praticamente o dobro, no Brasil, em relação à Alemanha ou à África do Sul. O custo de cada cadeira ficou na média em cerca de R$ 12 mil no Brasil, R$ 7 mil na África do Sul e R$ 6,5 mil na Alemanha. Aliás, na África do Sul, previa-se inicialmente que o megaevento iria gerar um acréscimo de 3% no PIB do país, o que justificaria seu alto custo. No entanto, o acréscimo foi de penas 0,3%. Ainda não é possível estimar os dados equivalentes da Copa de 2014.

 

Cadeiras_Arena_das_DunasA seleção perdeu em campo, mas os estádios brasileiros são campeões de custo por cadeira

Com economia mais desenvolvida, a Alemanha não apresenta grandes dificuldades em administrar seus estádios. Na África do Sul 1, no entanto, são muitas as “arenas” que viraram elefante branco após a competição – seis estádios. O Moses Mabhida, em Durban, o Cape Town, na Cidade do Cabo, o Nelson Mandela Bay, em Port Elizabeth, o Peter Mokaba, em Polokwane, e o Mbombela, em Nelspruit, geram prejuízo para as prefeituras locais. O Cape Town já acumula prejuízo de US$ 100 milhões para o governo. A África do Sul chegou a cogitar a implosão dos estádios.

Ainda segundo a publicação da HBS, a quantidade de recursos públicos utilizados na construção ou reforma dos estádios foi maior na África do Sul. Na edição de 2010, nada menos do que 100% dos gastos foram pagos pelo governo do país africano. O Brasil, no entanto, não ficou longe desses dados. Na Copa de 2014, cerca de 90,3% dos gastos vieram de cofres públicos. O governo alemão não bancou nem metade dos gastos com o Mundial de 2006 – 37% dos gastos foram públicos.

No Brasil, já se sabe que haverá imensa dificuldade de se administrar ao menos quatro estádios – em Natal, Brasília, Cuiabá e Manaus. Caríssimos, os equipamentos foram construídos em capitais onde o futebol praticamente inexiste. Os governos locais, no entanto, alegam que são “arenas multiuso”, e prometem utilizá-los para promoção de shows e outros eventos. O estádio de Brasília foi o mais caro da Copa – ao todo, custou R$ 1,4 bilhões.

Enquanto os governos estaduais enfrentavam as denúncias de superfaturamento nas obras, a FIFA comemorou lucros estratosféricos com tranquilidade, apesar de apresentar como uma entidade sem fins lucrativos. A FIFA teria faturamento cerca de R$ 9,7 bilhões no Brasil. Na África do Sul, os valores chegaram a R$ 7 bilhões, e na Alemanha R$ 4,4 bilhões.

Por meio da parceria com a TV Globo, apenas com direitos de televisão no Brasil, a entidade ganhou US$ 3,2 bilhões, mais do que os US$ 2,4 bilhões da última Copa, e os US$ 1,3 bilhões da penúltima. Com marketing, em parceria com a Globo Marcas, o lucro foi de US$ 1,6 bilhão no Brasil, contra US$ 1,1 bilhão na África do Sul e US$ 585 milhões na Alemanha.

Legado negativo

Os pesquisadores Regina Meyer Branski, Elisa Eroles Freire Nunes, Sérgio Adriano Loureiro e Orlando Fontes Lima Júnior fizeram um estudo sobre a infraestrutura das três últimas Copas. Uma das principais conclusões da pesquisa foi que, no caso do Brasil, os investimentos em sistemas de transporte não atendem as reais necessidades das cidades-sede. Mas o trabalho também gerou outra análises 2.

O custo final das obras, por exemplo, fica acima do previsto em quase todas as Copas. Na Copa 1994, nos Estados Unidos, houve prejuízo de 9 bilhões de dólares ao invés do lucro estimado de 4 bilhões (Matheson e Baade, 2004). No Japão e Coréia do Sul, na Copa de 2002, os custos das obras de infraestrutura foram bem superiores aos previstos inicialmente. No Brasil, o custo atual estimado está quase 300% maior que o previsto em 2007.

Quanto ao investimento em transportes, a Alemanha contou com valores bem inferiores, até porque o país conta com uma rede mais desenvolvida de rodovias, ferrovias e aeroportos. O país investiu US$ 7,28 milhões de dólares, sendo US$ 5,78 milhões do governo federal. Na África do Sul, estes valores dobraram – foram US$ 15,56 milhões despendidos. No Brasil, os dados previstos foram de US$ 11,517 milhões. Estes valores teriam que ser revistos, uma vez que muitas obras anunciadas não ficaram prontas a tempo.

Ao se comparar a atuação das seleções nacionais nos últimos quatro mundiais, evidentemente a África do Sul leva desvantagem, devido à menor tradição futebolística. Foi a primeira e única seleção anfitriã de Copa a ser eliminada ainda na fase de grupos. Brasil em 2014, Alemanha em 2006, e Coreia do Sul em 2002 foram eliminados apenas na semifinal. O Japão ficou nas oitavas de final na mesma Copa. Curiosamente, a Coreia do Sul e o Brasil foram eliminados em casa pelo mesmo time, justamente a Alemanha.

Dentro de campo, a Copa do Mundo no Brasil apresentou uma média de gols acima das três anteriores. O número de gols chega a 171, igual ao da Copa da França (1998). A média de tentos por partida, de 2,67, é a maior dos últimos 20 anos – em 1994 nos EUA foi de 2,71 3. Ao compararmos as informações sobre a organização do evento com a dos outros mundiais, no entanto, há poucos gols a se comemorar.


One Response

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